Por dentro das Disfunções Urinárias

Incontinência urinária também pode ter origem na Esclerose Múltipla

Já discorremos aqui que entre as diversas causas da incontinência urinária, algumas podem estar relacionadas à outra doença de base, como o Mal de Parkinson, o AVC (também conhecido como derrame), os tumores cerebrais e a Esclerose Múltipla. E é justamente esta última que vamos explicar um pouco mais a fundo, com a ajuda da Dra. Miriam Dambros (CRM SP-99988), docente em urologia e urologista em São Paulo.

Fizemos um ping-pong com a médica, que nos detalhou bem o processo da doença e sua relação com a disfunção urinária.

Controle Urinário: O que é a Esclerose Múltipla (EM)?
Dra. Miriam:
De forma simplificada, a EM é uma doença inflamatória crônica onde o sistema imunológico corrói as bainhas protetoras que cobrem os nervos, causando distúrbios na comunicação entre o cérebro e o corpo. Importante mencionar que é uma doença multifatorial, não associada ao processo de envelhecimento, e que acomete adultos jovens na faixa entre 20 e 40 anos. No Brasil, os dados epidemiológicos apontam uma incidência entre 15 a 18 pessoas a cada 100 mil habitantes.

Controle Urinário: Qual é a relação entre Esclerose Múltipla e as disfunções urinárias?
Dra. Miriam:
Os pacientes podem desenvolver problemas na bexiga, porque a doença retira a proteção dos neurônios formando placas endurecidas nas células, que por sua vez podem interromper a transmissão das mensagens de ida e volta ao cérebro. O funcionamento vesical adequado depende do bom funcionamento destas conexões nervosas para o perfeito enchimento e esvaziamento da bexiga.

Controle Urinário: Quais disfunções urinárias podem atingir o paciente portador de Esclerose Múltipla?
Dra. Miriam:
O paciente pode apresentar os sintomas urinários de urgência e/ou incontinência de urgência e retenção urinária. Alguns estudos relatam que entre 75% e 90% vão apresentar Incontinência Urinária (IU) em algum período da doença, o que sugere que a presença desta disfunção está diretamente ligada à evolução da EM. Os sintomas podem ser confundidos com os mesmos da infecção urinária, como urgência de urinar, o aumento das micções (polaciúria), a incontinência (com jatos interrompidos) e a perda de urina durante o sono (enurese). O paciente pode apresentar, ainda, hesitação ou dificuldade de iniciar a micção, sensação de não esvaziamento completo da bexiga e diminuição do jato urinário. O enfraquecimento do jato de urina ou falta de controle do urinar (conhecido como dissinergia vesico-esfincteriana) também pode permitir que ocorra o esvaziamento incompleto da bexiga.

Controle Urinário: É possível tratar a disfunção urinária juntamente com a EM?
Dra. Miriam:
É possível, sim. O tratamento da EM deve ser sempre multidisciplinar, envolvendo neurologistas, urologistas, fisiatras, fisioterapeutas e psicólogos. A partir do correto diagnóstico da doença e do estágio em que o paciente se encontra será traçado um plano terapêutico envolvendo todas as especialidades.

Controle Urinário: Quais seriam as alternativas de tratamento?
Dra. Miriam:
As disfunções miccionais relacionadas à EM são tratadas de forma semelhante às alterações vistas em pacientes neurológicos de causas diversas. Para estas situações, costuma-se evoluir nas opções terapêuticas, desde as menos invasivas até as opções cirúrgicas. Tenho conhecimento de algumas alternativas, como treinamento vesical, terapia comportamental, cateterismo vesical intermitente administração de medicações orais, aplicação da Toxina Botulínica A e intervenções cirúrgicas, mas qualquer uma delas é aplicada de acordo com cada caso. Inicialmente, o paciente é submetido ao tratamento comportamental e treinamento vesical, quando são esclarecidas as dúvidas sobre a doença, função vesical e aquisição de hábitos importantes para a melhora da qualidade de vida. Em seguida, inicia-se a terapia oral. Havendo falha das terapias iniciais, a Toxina Botulínica A é indicada. Em relação ao cateterismo vesical, é indicado nos casos em que há resíduo pós-miccional, o que pode levar a uma prevalência maior de infecção urinária e lesão do trato urinário alto.

Controle Urinário: Quais medidas o paciente pode adotar para que as disfunções miccionais não impeçam que siga sua vida profissional e pessoal?
Dra. Miriam:
O paciente com disfunção miccional promovida pela EM deve manter constante acompanhamento multidisciplinar, de forma que consiga receber orientações das diversas especialidades sobre sua doença. Na presença das disfunções urinárias é importante que ele adote medidas comportamentais no seu dia a dia com o objetivo de manter uma boa qualidade de vida, como diminuir a ingestão de líquidos ao sair de casa e à noite, evitar alimentos considerados irritantes vesicais (condimentados; temperos fortes, pimenta; cafeína em excesso; tabagismo), manter um programa de reabilitação de assoalho pélvico com fisioterapeuta e, ao urinar, fazer isso com tempo suficiente para facilitar o processo de esvaziamento vesical e diminuir o resíduo pós miccional.

Mais importante do que a compreensão do que é a doença e sua relação com as disfunções urinárias, é o contato com o especialista de base (neurologista) para que ele dê as devidas orientações e acompanhe, junto com o urologista, a evolução do tratamento.