Por dentro das Disfunções Urinárias

Quando o xixi na cama pode se tornar um problema?

Dentre tantos aprendizados ocorridos durante a infância, o controle do "xixi” está presente, seja no processo de desfralde, seja durante o sono, quando muito comumente a criança urina na cama. Mas, você sabe avaliar quando a ocorrência do descontrole urinário durante o sono está dentro do desenvolvimento normal ou quando pode estar relacionado a alguma disfunção? O urologista Dr. Frederico Mota Mascarenhas de Souza (CRM BA-14127), de Salvador, explicou para nós os sinais de possíveis problemas e quando procurar ajuda especializada.

"A perda involuntária de xixi ocorrida à noite, durante o sono, é conhecida como enurese noturna e pode acometer tanto adultos quanto crianças, e neste último caso é preciso ficar atento, pois os pais costumam dizer que os filhos urinam na cama por preguiça, quando na verdade existem outros motivos”, esclarece o especialista.

Comum até os cinco anos de idade, esta disfunção miccional está relacionada à maturidade neurofuncional da criança. "Nessa fase ela está aprendendo sobre a capacidade de enchimento e esvaziamento da bexiga e o momento certo de ir ao banheiro. Mais do que isso, a criança assimila que ela mesma tem este controle. É questão de adaptação”, orienta Dr. Frederico.

Segundo a Sociedade Brasileira de Urologia, até os 15 anos é comum que 1% dos jovens continue com a incontinência, mas ainda assim é recomendada a investigação para possível adesão do tratamento adequado. Quando a enurese noturna é primária, ou seja, a criança nunca apresentou controle urinário por um período prolongado, simples orientações comportamentais podem resolver, como impedir a ingestão de líquidos antes de dormir e acordar a criança no meio da noite para ir ao banheiro.

Se surgirem sintomas como a perda urinária ao longo do dia, urgência miccional, dor ao urinar, dor de barriga, constipação e incontinência fecal é hora de recorrer à ajuda profissional para uma análise mais detalhada, pois pode ser o caso de uma enurese secundária, ou seja, a criança volta a fazer xixi na cama sem motivo aparente depois de já ter passado seis meses (no mínimo) sem molhar a cama.

O urologista também explica que o problema miccional pode ser de fundo emocional da criança. "Se ela passou o dia na casa de um amiguinho, foi a uma festinha de aniversário ou até mesmo se brincou demais, acaba criando ansiedade que se transfere em perda de xixi noturna”, exemplifica.

O essencial é que os pais estejam ao lado da criança e deem total suporte, pois assim como os adultos, os pequenos também tendem a se isolar para evitar constrangimento – evitam escola, passeios, brincar com os amigos fora de casa. Inicialmente, Dr. Frederico sugere que, além das alternativas comportamentais citadas acima, os responsáveis elogiem a criança quando não fizer xixi na cama. Uma forma lúdica de reforçar o comportamento positivo é montar um calendário com ela, marcar os dias em que acordou seca e, ao final do mês, por exemplo, recompensá-la pelos dias "sem xixi”. Pode ser um passeio, um doce, algum amigo que ela gostaria de ver... O importante é ser algo que a criança veja como positivo para continuar se empenhando.

Além dessas opções, existe a possibilidade de utilizar o alarme. É uma caixinha pequena com um fio condutor, colocada ao lado da criança, com o fio dentro da cueca ou calcinha. Ao cair uma simples gota no fio, ele dispara um alarme que acorda a criança para ir ao banheiro.

Para os casos em que as ações comportamentais não surtem resultado, recomenda-se o uso de medicamentos, cuja função é diminuir a produção de urina da criança durante a noite. "O importante é consultar o especialista para que ele possa avaliar se a condição da disfunção é primária ou secundária e, a partir daí, elaborar o plano de tratamento adequado”, indica o urologista. E ele ainda acrescenta: "Alguns pais caem na tentação de fazer com que a criança volte a usar fralda, mas isso impede que ela tenha domínio do próprio corpo e não resolve o problema, que pode ser agravado posteriormente”.

Se você leu o nosso texto e ficou com dúvida se este pode ser o caso do seu filho, a melhor saída é conversar com o urologista para que o pequeno possa ter uma vida livre e saudável.